domingo, 8 de abril de 2012

Silêncio e meia luz

Meu silêncio é de noite
E faz som de passarinho.
Senão não durmo.
Longe bem longe,
Pode ter um burburinho,
Mas tem que ser indecifrável
Pra não chamar minha atenção.
Silêncio tem que ter som de noite
Em casa vazia.
Senão não canso.
É imprescindível que o silêncio
Não seja escuro
É preciso meia luz
Para guiar o sono,
Senão me perco
E não volto mais
Me desprendo e viro do avesso
Transformo meu silêncio em filme mudo
Rindo surdo de tudo que não me desperta mais.

quinta-feira, 22 de março de 2012




















Onde é poesia

O cheiro do cinamomo e o molhado do ar.
Minha tia, a Lurdinha e o Fabrício,
Os pais do Paulo.
O menino do ônibus.
O mar gelado.
A cidade da infância.
A velhice do meu avô.
Minha madrinha.
O cheiro guardado das casas antigas
As ladeiras de Caxias
Os castelos de Pelotas
Minha casa eterna em São Gabriel
Nada a esquecer.
A memória do infinito recupera dados e cheiros
De certa forma
Fico aqui.


segunda-feira, 19 de março de 2012













Despedida

Esse pensar todo me cansa,
O teu fogo já não me acende
E eu perco o ritmo no meio da dança.
Sigamos separados .
Eu não sei acompanhar teu ritmo descompassado,
E não adianta,
Eu não tenho pressa,
Pra mim não será a última vez,
Sempre o que me sobra é tempo.
Ver-te assim de longe
Agora,
Sem ser meu,
Faz-me pensar que eu não sou tua também.
Eu me fantasio de gente,
E no meio do mundo,
Eu amo a semente.
Longe de ti,
Eu enfim descubro,
Que posso esperar.
A festa acaba,
Vou-me embora de mãos dadas com o sol.

sábado, 17 de março de 2012

Considerações II

Ocupo o imenso espaço de viver,
E por hoje basta,
Esse teu coração
Praça do povo
Cenário descampado onde já amparei meu cansaço,
É passagem não abrigo.
É parada,
É meio de caminho.
Nele deixo a lembrança do que fui,
E sigo.
Não quero memórias,
Teu coração é o inverno da Sibéria...

domingo, 4 de março de 2012

Considerações

Esse frágil tecido que envolve o coração
É todo feito de inocência
E primeiros olhares.
O coração é sempre ávido
Sempre pronto pra se entregar
Mas um dia acaba.
De repente não se consegue mais
O sorriso no rosto morre.

Ninguém ama para ser infeliz,
Ninguém ama para não ser amado,
Mas se ama mesmo assim.
Quem ama perde a razão.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Pessoas satélites

- W3 sul, tem lugar pra ir sentado, tá vazio!
_ Vai, rodoviária, (suja, ordinária).
 Corre para o eixinho,
Pega, pede implora para o cobrador da lotação um cantinho,
Você se abaixa na barreira.
Vai, pega o baú, a combinha, a carona, pede carona.
Vai se embora, suma daqui!
Vai pra casa, vai pra cama, e dorme, dorme em paz,
E se possível não volte mais.
Porque aqui ninguém te quer.
Você é feio, você é pobre, você precisa.
Você não combina com a mansão do Lago Sul,
Você é preto, você é índio, você é nordestino.
Você trabalha você não descansa, você acorda cedo, você mora longe...
Vai-se embora, não volte.
Brasília não te quer,
Te escorraça todo dia.
E ainda assim você a lambe nos pés...
Brasília te humilha te ignora, e você ainda torce por ela,
Ainda vota pelo asfalto em frente ao seu portão
Ainda põe o nome na lista da cesta básica
Ainda acredita que o teu filho fará direito na UNB.
Você estuda pra concurso público, perde o domingo tendo fé.
E ainda torce para que o vizinho também passe,
E quando não encontra o nome na lista dos aprovados, pensa que estudou pouco,
Que da próxima vez chega lá.
Mas você não vai,
Ninguém te quer estudado, ninguém te quer seguro,
Ninguém quer que o teu filho tenha futuro.
Ninguém te quer aqui,
Brasília nunca foi teu lar, nunca te deu nada,
E tirou tanto de você...
Tirou sua juventude, o brilho dos teus olhos, a cor dos teus cabelos...
Não vê que você não cabe em Brasília?
A tua fé não serve pra nada nessa terra,
O teu Deus não vai te alcançar...
Vai embora antes que a tua dor vire ódio,
Antes que você perca o pouco que te resta,
Vai, enquanto você ainda tem pernas...
Depois?
Depois a miséria só cresce, toma conta do corpo,
Quando ela passa estampada na frente dos nossos olhos
A gente segura mais forte a bolsa, abaixa a cabeça, quase corre...
Fuja dessa tristeza de cidade grande, dessa frieza de cidade fabricada,
Porque você persiste nessa tentativa inútil de aceitação?
A tua miséria não combina com a noite do plano piloto,
Depois das 19h ninguém quer ver a tua cara de cansaço
Vai embora
Deita o teu rosto triste no colo que te cabe,
E deixa que o tempo passe,
Não adianta nada,
Brasília é uma cidade amargurada.
O mundo é.
E já desistiu de ti.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

No espelho


Uma mulher que ama
Mais do que suporta;

Eu sou a espera.












(Imagem- Jan Saudek)